[PENSAMENTO] A água e nossa vidinha paulistana.

20150214_164343

Rio Danúbio em Budapeste: não, ele não é azul. 

 

Assim como esse planeta pacato em que vivemos, o corpo humano é constituído por cerca de 70% de água¹. Não é por acaso que alguns cursos e escolas estrangeiras de paisagismo e urbanismo ensinam seus alunos a importância das water features (“partes com água”, em uma tradução bem livre) em todos os seus projetos. Foi com os professores húngaros, holandeses e austríacos que pude ser completamente convencida da importância da água nos parques urbanos e áreas públicas de grandes cidades. A maioria esmagadora do projetos que foram apresentados durante todo o curso de Landscape Architecture na Corvinus University of Budapest, os professores sempre explicavam com mais afinco sobre as áreas com detalhes aquáticos, tais como rios naturais atravessando determiandas áreas ou mesmo uma aplicação de cachoeirazinha artificial – não importa, a água tinha (e mantém) o seu papel importante em tudo o que e projetamos e vivemos.

Ainda na realidade europeia, podemos exemplificar essa ligação humana com a água por meio das cidades que possuem grandes rios que as atravessam. Penso aqui em Budapeste e Londres: cada uma com seus problemas (históricos e ambientais) e em qualquer uma nas circunstâncias de vida húngara ou na terra da rainha, a população tem uma conexão secular com o seus rios. Isso se dá pelas atividades realizadas pela população às margens do Rio Danúbio ou o Rio Tâmisa sem que tenham sido previamente projetadas pelos seus governos ou por algum escritório premiado de arquitetura e urbanismo.

As margens do Danúbio são áreas ótimas para sentar com seu parceiro(a) e ter um momento romântico estando o próprio rio logo a frente de seus corpos, enquanto corredores, patinadores e ciclistas disputando a calçada que está imediatamente “colada” à margem desviando de senhores(as) idosos que caminham tranquilamente olhando fixamente às águas. Ao passar próximos algumas das majestosas pontes húngaras, vemos alguns grupos adolescentes sentados na estrutura das pontes, sempre voltados ao rio, com suas garrafas de álcool e conversas absurdas. Continuando em cerca de 30 minutos em direção ao sul, durante o verão, jovens famílias e grupos de amigos tomam posse de uma pequena área, com uma areia escura e urbana, em seus trajes de banho e energia litorânea durante todas as horas de sol – lugar em que eu como “brasileira de praia” gentilmente batizei de “Uma Prainha Húngara”.

Já em Londres, a grande cidade do velho mundo que recebe turistas de todo o mundo, durante todos os dias do ano, tem belas paisagens, museus e áreas históricas onde os turistas se esbaldam em selfies.  Mas são às margens do Tâmisa, mundialmente conhecido por sua despoluição, onde concentra-se o maior número de pessoas (turistas ou não). Logicamente, muitas atrações turísticas podem ser melhor vistas a partir da margem do rio ou sob uma das pontes, mas percebi que existiam um número considerável de pessoas caminhando calmamente nas calçadas que margeam o rio, conversando em inglês ou em uma língua que não consegui identificar e que não estavam ali para tirar fotos ou “turistar”. Aquelas pessoas estavam ali para caminhar às margens do rio.

Foi a partir desses momentos em que eu, também caminhando sozinha às margens do Tâmisa porque queria “refletir” sobre algumas coisas da minha vida, observei que aquelas calçadas onde eu e outras tantas pessoas caminhavam não foram explicitamente projetadas para…caminhadas. Muitas dessas áreas eram ocupadas por mesas de restaurantes e bares (que aproveitavam da vista do rio para cobrar mais caro, talvez?) e por estacionamentos e até mesmo áreas abandonadas de fundos de edifícios. Não passei por parques lineares ou áreas lindas às margens do rio. Belas paisagens sim, seus edifícios históricos e a London-eye vistas no horizonte além da outra margem é lindo, mas ainda não era a Londres magnífica que eu, como viajante, sempre imaginei, mas estava ocupada por londrinos e estrangeiros que não estavam usando esses equipamentos que acabei de mencionar. Elas estavam…caminhando. Caminhando e não voltando de trabalho, cortando caminho e nem nada disso. Caminhando com os seus rostos voltados ao rio Tâmisa.

Nem vou entrar em questões ambientais em relação ao Danúbio e o Tâmisa pois quero concentrar minha ideia de que são rios localizados nas áreas mais densas de duas cidades de diferentes contextos históricos. Ambas recebem muitos visitantes internacionais e, dessa forma, é bem interessante ressaltar que muitas das minhas observações aqui descritas não são de apenas cidadãos que passaram a vida nessas cidades.

As pessoas em grandes cidades têm a tendência de procurar áreas onde elas possam ter uma momento com uma boa companhia ou até mesmo sozinhas. Pela natureza humana, necessitamos água e de contato com a própria natureza e sentimos falta disso, mesmo que não explicitamente. Nosso corpo entende isso e pede por isso. Nós como estudantes, pesquisadores, arquitetos e urbanistas sabemos que precisamos e da importância de áreas verdes e da revitalização de águas urbanas. Não é charme e nem é coisa de ativistas ambientais. Todos nós, sem exceções, precisamos estar em contato com uma área natural ao menos uma vez na vida. Repito: sem exceções.

Nossos parques urbanos talvez sejam uma forma que temos para não perdemos nossa conexão com a natureza dentro das grandes cidades. Mas por que então aqueles londrinos ainda preferem andar às margens do rio Tâmisa, em calçadas desformes e ambientes comerciais ao invés de ir para um parque rodeado de áreas verdes, sem os sons de carros e da cidade? Ou até mesmo em Budapeste, onde há áreas ótimas para patinadores e corredores, sem a visão do rio Danúbio  – mas todos finais de tarde, as margens do Danúbio era sempre palco destes mesmos?

Tenho duas teorias sobre isso. A primeira é que quando projeta-se parques urbanos, não é pensado sobre sua localização. O deslocamento é motivo agravante para o sucesso de um parque urbano. A segunda teoria é de que as pessoas querem estar perto do rio e nenhum outro lugar “articialmente natural” lhes daria a conexão que procuram ao estar olhando para um rio.

Chegando um pouco mais na nossa realidade paulistana, o exemplo que posso comparar de forma completamente equivalente à Londres e Budapeste é o lago no Parque do Ibirapuera. O parque é enorme, cheio de equipamentos para quaisquer tipos de atividades e lazer, mas as áreas imediatas em volta do lago são sempre – sempre! – mais disputadas para “dar uma sentadinha”. Chega a ser cativante observar tantas pessoas desconhecidas religiosamente dispostas com a frente de seus corpos a frente do lago, de diferentes idades, fazendo diferentes atividades, mas sentadas igualmente observando o querido lago paulistano e seus patos. Por horas.

Eu gosto de analisar como os corredores mais assíduos do parque preferem correr nas ruazinhas às margens do lago e disputar o espaço com ciclistas, patinadores e crianças ao invés de estarem nas pistas dedicadas somente à eles.

Outro exemplo mais recente e que particulamente considero tipicamente paulistano é a ciclovia fundada na margem imediata do Rio Pinheiros. Excluindo toda e qualquer posição política sobre isso, é quase incrível como tantos ciclistas toleram o terrível cheiro o rio para curtir alguns dos quilômetros entre capivaras e um pouco de plantas nativas. Eu diria que os paulistanos preferem aguentar o cheiro deles mesmos para poderem ter um momento de conexão com sua tão querida água.

O Rio Pinheiros, diferentemente do Tamanduateí ou o Tietê, parece apresentar um pouco mais dessas características de ligação humana. Talvez por questões geográficas ou até mesmo topográficas, o Pinheiros faz parte da vida dos paulistanos da zona sul e oeste direta ou indiretamente. Muitos de nós, nem percebe tanto isso.

Em algum dia da sua vida, não importa qual vida que você leva, haverá alguma necessidade de ligar-se com a água em sua cidade. De alguma forma, isso parece que sempre irá acontecer. Os responsávels pelas cidades e por suas águas deveriam lembrar-se disso ao planejarem qualquer coisa ou assinarem qualquer decreto. As pessoas, independentemente de suas leis ou áreas dedicadas para lazer ou contemplação, pragmaticamente irão tender à uma ocupação de margens de rios. Assim como nós mesmos fazíamos na pré-história e pelos mesmos motivos, continuamos procurando instintivamente a água para encontrar/começar/revitalizar nossas vidas.

Anúncios