[NOTÍCIA] Denise Scott Brown versus o Prêmio Pritzer

Denise Scott Brown, nascida em 1931 onde hoje é a Zâmbia, é uma arquiteta, urbanista, escritora e professora. Suas obras, ideias e questionamentos influenciaram muitos profissionais. Em conjunto com o arquiteto e também seu marido e sócio, Robert Venturi, o casal tornou-se um dos mais influentes arquitetos do século XX por suas contribuições à arquitetura moderna.

Denise e Robert se conheceram nos anos 60 na Universidade de Yale e os anos seguintes do relacionamento do casal foi marcado por projetos e teorias em conjunto. Em parceira com vários outros arquitetos, Denise e Robert influenciaram decisivamente a corrente pós-modernista da arquitetura mundial. Em 1972, o casal e o arquiteto Steven Izenour consolidaram suas experiências no livro “Learning From Las Vegas: the Forgotten Symbolism of Architectural Form”. O casal trabalhou em sociedade por 22 anos no escritório Venturi Scott Brown & Associates.

Entre suas obras mais recentes, destacam-se a coordenação do plano diretor e de projetos para novas construções no campus da Universidade de Michigan, além de inúmeras pesquisas para os campi da Universidade de Kentucky e Harvard. Até os dias de hoje, a arquiteta desempenha um papel fundamental na evolução da teoria e pesquisa da arquitetura e urbanismo.

Tanto a arquiteta quanto Venturi se mantém ativos na realização de projetos e ambos lecionam para cursos de graduação e pós-graduação em faculdades de arquitetura nos Estados Unidos. “Denise Scott Brown é minha inspiração e igual parceira”, diz Robert Venturi em entrevistas publicadas.

Criado em 1979, o Pritzker premiou apenas duas mulheres até hoje: Zaha Hadid (2004) e Kazuo Sejiima, que dividiu a honraria de 2010 com o sócio Ryue Nishizawa. O chinês Wang Shu recebeu sozinho a homenagem de 2012. Na época, o Pritzker deixou de lado sua mulher Lu Wenyu, sócia e co-criadora desde a fundação do escritório, em 1997.

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Recentemente, duas estudantes da Harvard Graduate School of Design, Arielle Assouline-Lichten e Caroline James, começaram uma petição online contra a decisão do júri na época em que apenas Robert Venturi foi indicado e pediram a reconsideração do prêmio para o casal. O caso tomou grandes proporções na internet e colocou sob análise pública as formas de reconhecimento às mulheres para o Pritzker.

“Eles não me devem um prêmio Pritzker, mas uma cerimônia de inclusão”, disse Scott Brown “Vamos saudar a noção de criatividade conjunta”.

A petição online das alunas reuniu mais de 17 mil assinaturas, entre elas a do próprio Venturi e de outros grandes nomes da arquitetura e vencedores do Pritzker, como Wang Shu e Rem Koolhaas.

Infelizmente, a decisão não foi favorável à arquiteta. O presidente do atual júri, Lord Peter Palumbo, apontou o fato de que não é possível alterar uma decisão anterior dos jurados da época. Na carta-resposta redigido e enviado por Palumbo, foi dito que “o júri do Pritzker, ao longo do tempo, é composto por diferentes indivíduos, cada um deles faz seu melhor para encontrar o mais alto e qualificado candidato. Um júri posterior não pode reabrir uma decisão, ou adivinhar como foi o trabalho do anterior. Ninguém jamais fez isso.”

O júri atual alega ainda que, apesar da resposta negando o pedido da petição, Denise continua elegível para o prêmio. Além disso, o júri ainda agradeceu às alunas por terem levantado uma questão importante.

 Abaixo, transcrevo a carta-resposta do júri em resposta à petição, traduzida do inglês:

“Caras Arielle Assouline-Lichten e Caroline James,

Obrigado por enviar sua petição e cartas, e a de outras pessoas, sobre a Sra. Denise Scott Brown e o Pritzker Architecture Prize. Por se tratar de um prêmio retroativo à Sra. Scott Brown, não é possível que o presente júri o faça. O jurado do Pritker, ao longo do tempo, é composto por diferentes indivíduos, cada um deles faz o seu melhor para encontrar o mais alto e qualificado candidato. Um júri posterior não pode reabrir uma decisão, ou adivinhar como foi o trabalho do anterior. Ninguém jamais fez isso.

Deixe-nos assegurar, no entanto, que a Sra. Scott Brown continua elegível ao Prêmio Pritzker. Esse prêmio é oferecido com base em todo o conteúdo de sua obra construída. A Sra. Scott Brown possui uma carreira longa e notável de realizações arquitetônicas e está nas mãos do júri presente e dos futuros determinar quem, entre tantos arquitetos praticando pelo mundo, irá receber os futuros prêmios.

Nem todos os observadores bem informados sempre concordam com a seleção do júri. Mas o júri continuará a fazer o seu melhor para selecionar unicamente com base na qualidade da obra do arquiteto. Dito isso, gostaríamos de agradecer a vocês por nos chamar diretamente a atenção para um problema mais geral, que é assegurar às mulheres um espaço justo e igual dentro da profissão.

Proporcionar essa segurança é, obviamente, uma obrigação que envolve cada parte da profissão, desde as escolas, que primeiro devem encorajar as estudantes a entrar na profissão, até os escritórios de arquitetura, que devem viabilizar as habilidades das mulheres para atingir seu potencial como arquitetas. Acreditamos que um papel particular que o júri do Pritzker deve preencher, a este respeito, é o de ter em mente o fato de que certas recomendações ou discussões relacionadas às criações arquitetônicas são frequentemente um reflexo de determinados tempos e locais, o que deve refletir preconceitos culturais que subestimam o papel da mulher no processo criativo. Onde isso ocorre, nós devemos levar, e levamos, tais problemas em consideração.

Seus pedidos nos lembram desta obrigação, e nós apreciamos que vocês os mandem. No entanto, como nos pedem para reabrir o processo de decisão de um júri antigo, nós não podemos fazê-lo.

Atenciosamente,
Lord Peter Palumbo, Presidente
Em nome do júri de 2013 do Pritzker Architecture Prize”

Para finalizar, uma recomendação de Denise Scott Brown: “Não expulse sua consciência feminista.”

Denise Scott Brown, Las Vegas, 1966.

Denise Scott Brown, Las Vegas, 1966.

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