[PROJETO] Praça Roosevelt: Um espaço emblemático da relação de São Paulo com seus espaços públicos

Por Mauro Calliari – Originalmente publicado em Vitruvius.

Nova Praça Roosevelt, outubro 2012<br />Foto Mauro Calliari

Nova Praça Roosevelt, outubro 2012 / Foto Mauro Calliari

A Praça Roosevelt

“Fora da sua casa (o homem urbano) se abre ao espaço público e à experiência da pluralidade humana”
Olivier Mongin (1)

Se for trazida para o contexto da cidade de São Paulo, a proposição de Mongin faz pensar na soma das experiências vividas nos espaços públicos da cidade. Qual é o cenário onde essas experiências acontecem? Mas, podemos também inverter a questão: quando se analisam os espaços públicos existentes, o que se pode dizer a respeito da sociedade que os criou? Ou, em outras palavras, quais são as dinâmicas que favoreceram a criação de espaços com determinadas características e o que elas podem contar a respeito de nós mesmos?

São Paulo tem aproximadamente 30 mil quilômetros de calçadas, 5500 praças e 43 parques. Alguns desses espaços, principalmente na zona central, são particularmente significativos para identidade da cidade: Parque da Luz, o primeiro parque, a Praça da Sé,o marco zero da cidade, Praça do Patriarca, no coração do centro histórico, a Praça da República, o Anhangabaú. Outros espaços adquirem significado a partir do uso que seus freqüentadores fazem deles, como, por exemplo, a calçada da Av. Paulista, na altura da Rua Augusta, que acolhe tribos diversas ao longo do dia e da noite.

A Praça Roosevelt é um desses espaços icônicos de São Paulo. A sua reinauguração, no último dia 28 de setembro, foi acompanhada de perto pelos veículos de comunicação e pelas redes sociais. Desde esse dia, a praça tem atraído grande quantidade de pessoas em dias úteis, fins-de-semana e até de noite. De dia, pode-se ver pessoas lendo, casais conversando, crianças no playground, skatistas nas rampas e gente passeando com seus cachorros. À noite, grupos exploram a praça, a partir dos teatros e bares em frente.

O interesse demonstrado pela reforma serve para ilustrar o quanto a Praça é importante para a identidade da cidade de São Paulo. Dentro desse ponto de vista, conhecer a história da praça e de suas transformações pode trazer elementos que ajudem a entender um pouco das contradições e dinâmicas que a sociedade paulistana vem apresentando nas últimas décadas.

 

A chácara nos confins da cidade

No finalzinho do século XVIII, em 1799, foi construída a Igreja Nossa Senhora da Consolação, à beira do caminho dos Piques, usado pelos tropeiros que, saindo do Largo da Memória, se dirigiam à região de Pinheiros e depois partiam para negociar com as cidades na região oeste do estado, como Sorocaba.

A região foi sendo ocupada pelas chácaras da elite econômica da cidade, como a do casal Martinho e Veridiana Prado, que ficava no grande terreno contíguo à Igreja.

No final do século XIX, as chácaras começaram a ser loteadas, dando início aos bairros da região, como Santa Cecília e Higienópolis.

Quando Dona Veridiana, como era chamada, se separou do marido e decidiu mudar-se para o palacete que construíra na atual Avenida Higienópolis em 1884, suas terras também começaram a ser foram parcialmente loteadas, abrindo espaço para um avanço na ocupação urbana, inclusive com a abertura da Rua Florisbela, posteriormente chamada de Nestor Pestana na área que ocupava o velódromo, uma das novidades introduzidas pela agitadora cultural.

A área remanescente do terreno continuou em poder da família até ser entregue ao poder público na década de 1930, como maneira de resolver a questão da contaminação causada no reservatório de água pelo esgoto da chácara.

Essa área em volta da Igreja, já nesta época totalmente reconstruída, deu origem à Praça da Consolação, nome que manteve até 1950, quando se decidiu homenagear o ex-presidente americano Franklin D. Roosevelt.

 

O vazio em meio à cidade

Entre as décadas de 1950 e 1960, a Praça Roosevelt virou uma grande área asfaltada, vazia, em meio aos prédios residenciais, lojas, bares, restaurantes e teatros que cresceram em sua volta.

Seu uso era diversificado. Nos dias úteis, tornava-se um grande estacionamento, acomodando quase 700 carros. Nos finais de semana, abrigava aos sábados uma feira bastante concorrida e aos domingos a missa na Igreja. À noite, recebia os frequentadores e artistas que percorriam os ícones da região, como o Baíuca, a doceria Vendôme, o Sujinho, o Cine Bijou e o Teatro Cultura Artística.

 

O projeto modernista

A ligação leste-oeste implantada na década de 1970 veio a mudar radicalmente a configuração do local. As obras viárias rasgariam a praça e um novo projeto foi concebido para funcionar como uma “tampa” sobre os veículos.

Esse projeto deveria refletir a modernização da cidade, segundo seus idealizadores e a prefeitura: “A Roosevelt não tem comparação no mundo, é diferente das novas praças de Montreal como é superior ao Lincoln Center de Nova York”, Roberto Coelho Cardozo, paisagista (2).

Segundo o arquiteto Marcos de Souza Dias, “A Roosevelt era mais que uma praça. Era um sistema viário, edifício e viaduto” (3). Com esse conceito e a expectativa de representar a força modernizadora da cidade, os cinco andares da praça abrigariam estacionamento subterrâneo, centro esportivo, centro educacionais, polícia, lojas de souvenir, um centro cultural (que não foi executado), um mercado distrital (trocado posteriormente por um supermercado).

O projeto foi alvo de críticas e controvérsia desde o início. Segundo o arquiteto José Eduardo Lefévre, “a praça ficou velha no dia seguinte à sua inauguração” (4).

A degradação física se acentuou na década de 1980 e 90. Segundo um relatório posterior da Secretaria de Coordenação das Subprefeituras, a praça sofria com violência, sujeira, poluição visual e obstrução do trânsito para pedestres – e coincidiu com o fechamento de lojas, bares e restaurantes no seu entorno.

No ano 2000, o grupo de teatro Os Satyros se instalou num desses espaços vazios. Sua chegada é emblemática por trazer novos usos para a Praça, estimular a vinda de novos públicos e de outros grupos e, principalmente, por ser um porta-voz da urbanidade e da convivência entre grupos diferentes no mesmo espaço.

 

A nova praça

As discussões sobre uma possível reforma da praça ganharam força em 2004, quando a cidade conseguiu um grande financiamento do BID para o programa Procentro, destinado a promover melhorias no ambiente urbano da área Central. Apesar disso, ainda foram necessários mais cinco anos até que o novo projeto fosse aprovado.

Nova Praça Roosevelt, outubro 2012 / Foto Mauro Calliari

A demora deveu-se a várias questões. Uma delas foi a indecisão sobre o destino das várias concessionárias, do EMEI que se encontrava na Praça e que acabou sendo mudada para uma área em frente e até sobre uma área em disputa com a Arquidiocese, responsável pela Igreja da Consolação. Um fato importante para a nossa abordagem foi a entrada em cena de várias entidades representativas da sociedade civil na discussão do futuro da praça. Esse debate foi sendo organizado ao longo do tempo, através da criação de um conselho da Praça. Uma das decisões mais importantes foi a de destruir parte da estrutura anterior, inclusive o pentágono, um de seus símbolos.

O projeto foi conduzido pela própria equipe da EMURB, liderado pelo arquiteto Rubens Reis, buscando retomar a ligação da praça com o entorno, simplificar a circulação através de um grande eixo entre a Rua Augusta e a Consolação e abrir amplos espaços de convivência, com bancos e árvores.

Depois de dois anos de obra, a praça foi inaugurada em setembro de 2012, ainda incompleta, com a previsão de ser terminada em seis meses.

 

A Praça Roosevelt e o seu simbolismo

 

A cronologia dos principais eventos relativos à história da praça deveria nos ajudar a revelar alguns traços a respeito das mudanças nas dinâmicas sociais da cidade. Vamos agora ver quais são esses traços.

A primeira inferência que se pode fazer tem a ver com o aumento da complexidade nas relações entre governo e sociedade civil. As decisões relativas à praça denotam uma presença crescente de interlocutores na tomada de decisão.

Se, no projeto modernista, as decisões foram tomadas de uma maneira unilateral pelo poder executivo municipal, esse cenário seria inimaginável hoje em dia. Há um maior número de atores interessados e dispostos a fazer valer seus interesses. No caso das audiências públicas de 2009 sobre o novo projeto, o debate envolveu os movimentos Viva o Centro, Fórum Centro Vivo, Ação Local Roosevelt, formados por segmentos com pontos de vista distintos sobre o uso do espaço.

 

Nova Praça Roosevelt, outubro 2012 / Foto Mauro Calliari

 

Essas relações aumentam em complexidade na medida em que, além dos grupos formalmente organizados, viu-se também a participação crescente de pessoas com interesses comuns, como os responsáveis pelas casas de teatro ou o grupo de skatistas.

É possível especular também que o ganho de legitimidade nas decisões provavelmente venha a acarretar aumento na responsabilidade conjunta. A presença do conselho gestor da praça, a exemplo de conselhos em parques públicos, é sinal de que a sociedade civil também estará presente na manutenção dos espaços e não apenas nas discussões dos projetos.

A segunda inferência tem a ver com as mudanças morfológicas e de uso da praça ao longo do tempo. Se é fato que, como diz Christian Norberg-Schulz, o espaço com significado vira lugar (5), a busca desse significado no espaço público é prerrogativa dos seus frequentadores. Ou seja, é possível que a mesma cidade que tem grande parte de seus lançamentos imobiliários na forma de condomínios fechados, esteja demonstrando que os espaços públicos também devem fazer parte dessa identidade.

A fase do “espaço vazio” das décadas de 1950 e 1960 mostrou um espaço público amorfo, como se o poder público e a sociedade civil não soubessem que papel ele deveria exercer diante da vida intensa que acontecia nas suas bordas. Alguns diretores dessa época, como Walter Hugo Khoury ou Luiz Sergio Person, usaram o espaço como metáfora do vazio e da falta de sentido em seus clássicos “Noite vazia” e “São Paulo SA”. Já alguns moradores, como Ignácio de Loyola Brandão, descrevem com graça a diversidade dos freqüentadores da feira, que se misturavam às figuras da noite.

Pode-se dizer que, para estes, o espaço ganhou significado e acabou virando um lugar.

A fase do projeto modernista está identificada com a idéia de que o estado seria capaz de prover as soluções necessárias para o progresso. Assim, suas obras deveriam exprimir a noção de modernização, através de obras que privilegiaram a circulação de carros. Foi assim que o Minhocão pode ser construído em menos de um ano e que a própria Praça Roosevelt foi decidida e construída. Esse modernismo tardio em relação ao resto do mundo escorou-se, de um lado na força do governo militar, e de outro, numa ausência de instituições que pudessem traduzir a voz da sociedade civil.

François Ascher, em Os novos princípios do urbanismo, comenta essa postura: “o urbanismo moderno apoiou-se sobre uma arquitetura e formas urbanas que correspondiam à sua ideologia funcionalista e esforçou-se por generalizá-las” (6).

Já o projeto recém-inaugurado, fruto de algum debate e beneficiário do conhecimento dos fracassos anteriores, assume de vez o partido da escala humana, em contraposição ao projeto modernista, adotado para resolver o problema funcional. A respeito disso, cabe a frase do urbanista dinamarquês Jan Gehl, para quem, “a cidade vista de cima não faz sentido para as pessoas, que andam a cinco quilômetros por hora” (7). Assim, podemos dizer que a praça humanizou-se: ela oferece mais integração com as ruas e calçadas do entorno, eliminou as barreiras visuais, diminuiu o número de espaços fechados, tem mais árvores, bancos e mais acessibilidade.

A terceira inferência tem a ver com a simbiose entre a praça e o seu entorno – comércio, bares, teatros, moradias – ou, colocada de outro modo, o relacionamento entre a coisa pública e a coisa privada. Mais do que refletir uma dinâmica, o espaço público também tem o poder de influenciá-lo.

 

Nova Praça Roosevelt, outubro 2012 / Foto Mauro Calliari

 

Dessa maneira, se, em meados do século XX, a praça era um vazio cercado por uma cidade efervescente, o projeto de modernista de 1970 inverteu a situação. A praça se tornou um monumento segregador e impenetrável e acabou contribuindo para o esvaziamento do entorno.

Diante disso, pode-se dizer que a nova praça talvez seja um meio termo entre esses extremos, ou seja, que o espaço criado pode vir a contribuir para a urbanidade do entorno, facilitando trocas, estimulando o convívio e, principalmente, refletindo a diversidade da cidade. Afinal, como disse uma das maiores críticas do urbanismo modernista funcional, a jornalista Jane Jacobs: “na realidade somente uma vizinhança diversificada tem o poder efetivo de induzir uma fluência natural e permanente de vida e de usos” (8).

Para concluir, podemos retomar a pergunta inicial: que tipo de sociedade o espaço público paulistano, representado pela Praça Roosevelt, reflete?

Diante da história da praça e dos processos narrados, talvez a resposta possa ser: uma sociedade cada vez mais diversificada, que atribui maior importância à qualidade dos espaços públicos para a formação de sua identidade e que está aprendendo a interagir com o poder público em busca de seus interesses. O poder público, por sua vez, parece estar se dando conta da necessidade de se abrir para a interlocução com a sociedade na discussão de suas ações e também da importância da gestão e manutenção diária das obras inauguradas.

Ainda é cedo para se avaliar o resultado da reforma, mas vale a pena esperar os próximos meses e anos, para que o tempo e o uso consolidem a Praça Roosevelt como parte da identidade de uma cidade mais plural e diversa.

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notas

1
MONGIN, Olivier. A condição urbana: a cidade na era da globalização. São Paulo, Estação Liberdade, 2009, p. 61.

2
O Estado de São Paulo, São Paulo, 15 set. 1995. Apud FERREIRA, Jair César Maturano. Praça Roosevelt: possibilidades e limites do uso do espaço público. Tese de doutorado. São Paulo, FFLCH USP, 2009.

3
SOUZA DIAS, Marcos. Praça Roosevelt. Acrópole, São Paulo, n. 380, 1969. Apud FERREIRA, Jair César Maturano. Op. cit.

4
Diário Popular, São Paulo, 16 abr. 1997. Apud FERREIRA, Jair César Maturano. Op. cit.

5
NORBERT-SCHULZ, Christian. O fenômeno do lugar. In NESBITT, Kate (org). Uma nova agenda para a arquitetura. 2ª edição. São Paulo, Cosac Naif, 2008, p. 449-453.

6
ASCHER, François.Os novos princípios do urbanismo. São Paulo, Romano Guerra, 2010, p. 93-94.

7
GEHL, Jan. Palestra proferida na Universidade Presbiteriana Mackenzie. São Paulo, 20 jun. 2012. Ver também GEHL, Jan. Life Between Buildings. Londres, Island Press, 2011.

8
JACOBS, Jane. Morte e vida das grandes cidades. São Paulo, Martins Fontes, 2009, p. 110.

referências bibliográficas

Análises e propostas da Associação Viva o Centro ao Projeto apresentado pela Emurb para a reforma da Praça Roosevelt. São Paulo, Associação Viva O Centro, 2009.

Entrevista com o Arquiteto Rubens Reis, um dos responsáveis pelo projeto da Praça Roosevelt, 24 set.e 2012.

Nova Praça Roosevelt. Proposta Outubro. São Paulo, Emurb, 2007.

Praça Franklin Roosevelt, Requalificação urbanística. São Paulo, Emurb, maio 2009.

Requalificação Urbanística Praça Roosevelt. Termo de referência. São Paulo, Emurb, maio 2004.

SUN, Alex. Convívio e exclusão no espaço público: questões de projeto da praça. Tese de doutoramento. São Paulo, FAU USP, 2004.

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