[Pensamento] Forma na Arquitetura – Oscar Niemeyer

Trechos extraídos do livro Forma na Arquitetura de Oscar Niemeyer:

“Minha idéia, ao escrever este pequeno texto, foi definir meu pensamento sobre o problema da forma na arquitetura, assunto que constitui, a meu ver, um equívoco lamentável ampliado pelo funcionalismo, utilizado pelos pequenos grupos que dele se servem até hoje. É problema que me ocupou por toda a vida e no qual intervim quando, em 1940, projetei as obras da Pampulha, em Belo Horizonte. (…) A forma evoluiu na arquitetura em função das novas técnicas e dos novos materiais que lhe dão aspectos diferentes e inovadores.

Primeiro, foram as formas robustas que as construções em pedra e argila obrigavam; depois, surgiram as abóbadas, os arcos e as ogivas, os vãos imensos, as formas livres e inesperadas que o concreto permite e os temas modernos solicitam.

Diante dessa evolução contínua e inevitável e dos programas que surgem, criados pela vida e pelo progresso, o arquiteto vem concebendo, atráves dos tempos, o seu projeto: frio e monótono ou belo e criador, conforme seu temperamento e sensibilidade. Para alguns, é a função que conta; para outros, inclui a beleza, a fantasia, a surpresa arquitetural que constitui, para mim, a própria arquitetura.

E essa preocupação de criar beleza é, sem dúvida, uma das características mais evidentes do ser humano, em êxtase diante desse universo fascinante em que vive. E isso encontramos nas épocas mais remotas, com o nosso ancestral longínquo a pintar as paredes de sua caverna, antes mesmo de construir o seu pequeno abrigo.

E o mesmo se repete pelos tempos afora, a partir das pirâmides do Egito. Arquitetura-escultura, forma solta e dominadora sob os espaços infinitos. Sobre a beleza e a forma plástica na arquitetura lá pelo ano de 36, quando iniciei minha vida de arquiteto e a arquitetura contemporânea se fixava entre nós com o funcionalismo pontificando, recusando a liberdade de criação e a invenção arquitetural sempre presentes nos grandes períodos da arquitetura.

Foi o tempo da planta de dentro para fora, do ângulo reto, da máquina de habitar, da imposição dos sistemas construtivos, imitações funcionalistas que não me convenciam ao olhar as obras do passado tão cheias de invenção e lirismo. Não podia compreender como, na época do concreto armado que tudo oferecia, a arquitetura contemporânea permanecesse com um vocabulário frio e repetido, incapaz de exprimir aquele sistema em toda a sua grandeza e plenitude.

Recordava, então, os velhos períodos, quando, limitado por uma técnica ainda incipiente, o arquiteto penetrava, corajoso, no caminho do sonho e da fantasia. Mas a arquitetura contemporânea baseava sua presença na técnica construtiva que tudo devia modificar, apoiando-se no funcionalismo para realizar a metamorfose desejada: substituir as antigas fachadas pelos grandes painéis de vidro; as grossas paredes de alvenaria pelas finas colunas de concreto; os telhados, os frontões e outros elementos que compunham as coberturas pelo terraço-jardim e os espaços, antes ocupados pelos edifícios, pelos pilotis. E o funcionalismo se transformou na sua arma preferida, recusando a liberdade de concepção com seu rigorismo estrutural opressivo.

Durante os primeiros tempos, procurei aceitar tudo isso como uma limitação provisória e necessária, mas depois, com a arquitetura contemporânea vitoriosa voltei-me inteiramente contra o funcionalismo, desejoso de vê-la integrada na técnica que surgira e juntas caminhando pelo campo de beleza e da poesia.

E essa idéia passou a dominar-me, como uma deliberação interior irreprimível, decorrente talvez de antigas lembranças, das igrejas de Minas Gerais, das mulheres belas e sensuais que passam pela vida, das montanhas recortadas esculturais e inesquecíveis do meu país. “Oscar você tem as montanhas do Rio dentro dos olhos”, foi o que um dia ouvi de Le Corbusier.

Mas, não raro, era a forma abstrata que me atraía, pura e delgada, solta no espaço à procura do espetáculo arquitetural. E nela me detinha, conferindo-a tecnicamente, certo de que alguns teriam empenho em analisá-la, com essa vocação para a mediocridade que não permite concessões nem obra criadora.

E isso explica minha atuação diante das obras de Pampulha, apesar de recém-saído da escola de arquitetura, mas já tocado por essa vontade imperiosa de contestação e desafio. E Pampulha surgiu com suas formas diferentes, suas abóbadas variadas, com as curvas da marquise da Casa do Baile e provocarem os tabus existentes.

Mas não devo falar de Pampulha sem antes me referir a certos falos que a precederam, sem lembrar que outros projetos – já modernos – começavam a aparecer, embora despidos do espírito radical e renovador que ela exibia.

(…)
Mas se o prédio do Ministério, projetado por Le Corbusier, constituiu a base do movimento moderno no Brasil, é a Pampulha – permitam-me dizê-lo – que devemos o início da nossa arquitetura, voltada para a forma livre e criadora que até hoje a caracteriza. Durante anos acompanhei com JK as obras da Pampulha, visitando juntos, altas horas da noite – como vinte anos depois ocorreu em Brasília – os canteiros de serviço, surpreso com o seu entusiasmo a imaginar Pampulha já construída e o cassino, o clube, a igreja e a Casa do Baile a se refletirem nas águas da represa. E Pampulha inaugurou-se, e cobriu-se de casas e jardins, de vegetação, ruídos e alegria. Era o bairro diferente que Juscelino sonhava e que tanta falta fazia a Belo Horizonte. Os que visitavam Pampulha se entusiasmavam com as formas novas que ela oferecia e a leveza de sua arquitetura. De Lucio Costa, que a visitou logo depois de inaugurada, recebi esse telegrama “Oscar, Pampulha é uma beleza”. Do meu colega francês, Deroche, que encontrei vinte anos depois em Paris, esta frase sugestiva: “Pampulha foi o grande entusiasmo da minha geração”. De Ozenfant, amigo de Le Corbusier, recolhi, no seu livro de memórias, este trecho claro, de destino inconfundível: “Le Corbusier, depois de ter defendido a discilplina purista e a lealdade ao ângulo reto, pelo qual pretendia direitos particulares, parece ter decidido abandoná-lo, ao sentir no vento as premissas de um novo barroco, vindo de fora, que faz justiça a ele mesmo e, como sempre, com um imenso talento”.

Mas nem todos sorriam. Para os mais dotados, Pampulha era uma opção atraente, permitindo a liberdade que o funcionalismo recusava. Para outros, um caminho difícil de seguir e principalmente de conceber. Uns se aventuraram nessa tarefa e os resultados nem sempre foram satisfatórios, o que explica alguns exemplos lamentáveis disseminados pelo país; outros, mais realistas, preferiram manter-se nas soluções simples e fáceis de projetar. Mas alguns contra Pampulha se insurgiram, incapazes de nos acompanhar nas formas mais livres que propúnhamos.

E as palavras barroca e fotogênica se repetiam, vazia e gratuitas, pois os que nos contestavam nada de novo tinham a sugerir. A idéia do barroco, que Herbert Reed tão bem compreendia, resumia-se para eles num termo pejorativo cujas nuanças e significação pareciam desconhecer. A própria curva, que tanto os perturbava, era por eles desenhada de forma frouxa e desfibrada, não a sentindo, como nós, estruturada, feita com curvas e retas. Até as colunas que afastávamos dos edifícios e desenhávamos como formas livres e variadas, eles não conseguiam compreender. Um dia, contei como as projetava, como ao desenhá-las me via a circular entre elas e os edifícios, imaginando as formas que teriam, os pontos de vista possíveis de variar, etc. Meu intuito era mostrar como o problema plástico era laboriosamente pensado e como neles nos detínhamos com carinho.

(…)
Aos que contestavam explicava pacientemente as razões da minha arquitetura, dizendo, por exemplo – para evitar discussões ociosas -, que as curvas da marquise da Casa do Baile acompanhavam e protegiam as mesas localizadas junto à represa, quando na verdade eram apenas as curvas que me atraiam.

Às vezes, revoltava-me contra tanta insensibilidade, respondendo aos mais complexados que formalista era a arquitetura purista que propunham, pois antes de elaborada já a esperávamos nos seus eternos cubos de vidro, o que para mim constitui formalismo absoluto, considerando que programas construtivos sugerem, muitas vezes, soluções recortadas e inovadoras.

(…)
Mas foi em Brasília que minha arquitetura se fez mais livre e rigorosa. Livre, no sentido da forma plástica; rigorosa, pela preocupação de mantê-la em perímetros regulares e definidos. E se fez mais importante, sem dúvida, pois se tratava da arquitetura de uma Capital. Minha preocupação foi caracterizá-la com as próprias estruturas, armando os apoios com o objetivo de tomar os palácios mais leves, como que simplesmente tocando o chão, e incorporei a arquitetura ao sistema estrutural, permitindo, que, terminada uma estrutura, ela também estivesse presente, ao contrário dos prédios usuais, onde aparece depois, pouco a pouco, com a colocação dos pré-fabricados, brise-soleil, vidros, etc. Integrava-a na técnica mais avançada, no vão maior, nos balanços imensos, nela caracterizando o apuro do conceito armado.”

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Para saber mais:

Artigo: O encanto da contradição – Conjunto da Pampulha, de Oscar Niemeyer por Carlos Eduardo Dias Comas

Documentário: Oscar Niemeyer – Pampulha – O Marco (23 min, MG, 2002), direção de Moacir de Oliveira: 

Fotos da igreja da Pampulha por Gilvandro Gurgel:

IGREJA DA PAMPULHA obra de Oscar Niemeyer e painel de Portinari - BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - BRASIL. IGREJA DA PAMPULHA obra de Oscar Niemeyer - BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - BRASIL. IGREJA DA PAMPULHA obra de Oscar Niemeyer - BELO HORIZONTE - MINAS GERAIS - BRASIL.

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