[Pensamento] #1 Mies van der Rohe: “Arranha-céus”

Arranha-céus¹

Só os arranha-céus em construção mostram ideias construtivas audaciosas. A impressão desses esqueletos de gelo que se destacam no céu é pertubadora.

Com o revestimento das fachadas essa impressão desaparece completamente. O pensamento construtivo, o fundamento necessário ao processo de dar forma artística, é aniquilado e frequentemente sufocado por um caos de formas triviais e destituídas de sentido. No melhor dos casos, hoje emerge somente a grandeza física, e essas construções teriam que poder ser algo mais do que a manifestação das nossas potencialidades técnicas. Porém, deveríamos renunciar à tentativa de resolver essas tarefas novas com as formas partindo de sua própria essência.

O novo princípio construtivo desses edifícios aparece claramente quando se adota a ótica de empregar o vidro para recobrir essas paredes não mais estruturais. O uso do vidro leva necessariamente a novos caminhos. No meu projeto para o arranha-céu da Friedrichbahnhof de Berlim, para o qual estava disponível uma grande praça triangular, uma forma prismática que se adaptasse a ela me pareceu a melhor solução. Depois dei uma leve angulação às superfícies frontais que se contrapõem, de modo a evitar o efeito apagado que surge com frequência nas grandes superfícies em que o vidro é utilizado. Minhas tentativas em uma maquete de vidro me indicaram o caminho, e reconheci rapidamente que, com o uso do vidro, não se devia atingir jogos de luz e sombra, mas um rico jogo de efeitos luminosos. Era a isso que eu ansiava no outro grande projeto publicado aqui.

Numa observação superficial, o contorno da planta pode parecer arbitrário, porém é o resultado de muitas experiências efetuadas na maquete de vidro. A iluminação interna do edifício, o efeito de seu volume no contexto da rua e, por fim, o jogo desejável de reflexos de luz foram determinantes para as curvaturas.

Na maquete, os contornos das plantas, em que as curvas foram calculadas sob luzes e sombras, se mostraram totalmente inadaptados à utilização do vidro. As escadas e os elevadores são os únicos pontos imóveis da planta.

Todas as outras subdivisões da planta devem ser adaptadas de acordo com a necessidade e serão completadas com vidro.

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¹ Todos os textos da categoria [PENSAMENTOS] de Mies van der Rohe no blog Pega na Arquitetura foram extraídos de uma coletânea de escritos do arquiteto: Neumeyer, F. Mies van der Rohe. Das Kunstlose Wort, Gedanken zur Baukunst, Berlim, Wolf Jobst Siedler, 1986. Arranha-céus: Frühlicht, 1, n.4, 1922, págs, 122-4

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