[TRADUÇÃO] Entrevista com Tadao Ando: 20 minutos com um mestre

Publicada originalmente em inglês no site Archinect – Tadao Ando Interview: 20 Minutes with a Master

Por Paul Petrunia

Foto: Kaori Walter, @Archinect

Orhan Ayyüce: Eu te encontrei há 25 anos no escritório da Morphosis enquanto você visitava LA fazendo palestras. Eu gostaria de te perguntar sobre as mudanças que você notou em Los Angeles desde aquela época.

Tadao Ando: A primeira vez que eu fui para LA foi em 1975. Desde então o mundo mudou muito rápido. Assim como o meio ambiente. A mentalidade, ou pensamento, dos arquitetos daqui não mudou tanto em relação a proporção da mudança ambiental.

Orhan Ayyüce: Você pode descrever isso um pouco mais? Os arquitetos deste período acreditam que estão fazendo um trabalho inovador. Você ainda pensa que isso é verdade?

Tadao Ando: O que eu vejo, ao contrário dos anos 50, quando nós observamos o estudo de caso de casas, parte da arquitetura da Califórnia era a promessa para um novo estilo de vida. A arquitetura estava tentando acomodar, ou relacionar, com esse novo estilo de vida para a nova geração. Isto parece ter gradualmente mudado com a procura por forma de expressão própria. Atualmente, eu vejo mais arquitetura que se relaciona com os negócios arquitetônicos. Nesse sentido, parece que o foco de tentar definir como será o estilo de vida em seu tempo não é tão forte como costumava ser na década de 50.

Orhan Ayyüce: Nos anos 50, as condições econômicas eram completamente diferentes. Nós estávamos em uma era completamente diferente. Nós tínhamos a diferença muito definida entre níveis de renda, então havia algum nervosismo político e arquitetos não podiam separar eles mesmos desse nervosismo, então eles tiveram que atender às questões sociais assim como às questões urbanas. Eu gostaria de saber se você tem algum pensamento sobre o papel do arquiteto em ser um líder social na mudança de meio ambiente ou o que eles podem fazer em uma escala urbana.

Tadao Ando: Para mim, volta ao que estávamos falando antes, isso não é um problema exclusivo de Los Angeles. É um problema que todos dividimos em relação aos recursos naturais e ao meio ambiente. Não faz muito tempo, éramos um planeta de 3 bilhões de pessoas. Agora somos 7.7 bilhões. Nós rapidamente seremos 10 bilhões. Por isso, é muito difícil em sempre não pensar sobre como usar os recursos disponíveis para nós. No sentido da abertura que você mencionou, isso conduz a algo que precisamos resolver, não importa se você é rico ou pobre. Como um profissional do design, precisamos deixar muito claro qual é a nossa posição, dada a situação global que enfrentamos. Como nós inteligentemente resolvemos o problema que qualquer um enfrenta sobre recursos materiais? E como nós conduzimos a sociedade a pensar que isso é algo que precisamos resolver ao invés de apenas seguir os objetivos de negócio orientados de cada projeto? É importante que dentro de cada um em nosso trabalho, que nós pensemos sobre como utilizar materiais e quanta energia será consumida de forma que isso crie uma mensagem significativa para as pessoas que vivem nas construções. Como a importância do meio ambiente é percebida através da experiência arquitetônica?

A maneira como tais arquitetos pensam sobre suas obras ainda é a mesma. Não há alteração ou mudança de foco na forma como os arquitetos se resolvem com recursos disponíveis e energia utilizada. É importante para os jovens arquitetos começarem a pensar sobre isso.

Foto: Kaori Walter, @Archinect

Orhan Ayyüce: Você está fazendo algum trabalho, em seu escritório, que incorpora os princípios que acabou de falar?

Tadao Ando: Para mim, o que estou tentando fazer é tentar fazer com que as pessoas pensem sobre essas questões. Eu não estou em uma posição para dizer para as pessoas o que fazer. Eu quero que as pessoas percebam o potencial e o problema. Por exemplo, em meu trabalho, seja um museu de arte ou outro tipo de projeto, eu tento colocar a natureza como foco da mensagem.  Uma pessoa olha para o espaço que eu projetei, ela se questiona sua própria existência e como isso se relaciona com o espaço, mas ainda está olhando para a arquitetura em relação ao contexto natural.

Eu olho para a arte – não importa qual seja a arte, música, filme, arquitetura – como uma forma de procurar por inspiração. Fazer uma coisa sobre outras coisas. Então, dessa mesma forma, eu tento fazer com que as pessoas pensem outras coisas em meu próprio trabalho. Por exemplo, no voo para cá, eu estava assistindo o filme “Dama de Ferro” com Meryl Streep atuando como Margaret Thatcher nos seus últimos anos. Eu estava assistindo Meryl Streep como uma atriz – um artista interpretando um papel – mas ao mesmo tempo estava pensando sobre a vida e decisões de Margaret Thatcher. De uma maneira semelhante, em meu próprio trabalho, eu tento incorporar a mensagem que os usuários podem levar consigo e usá-la a sua maneira.

Outro exemplo é quando eu estava em Malibu esta manhã e no lugar da minha construção havia um grupo de leões-marinhos e isso me fez perceber que eu não estava sozinho no meio ambiente. Eles usam este mesmo meio ambiente.

Paul Petrunia: O negócio de arquitetura está em crise atualmente. Há muitos jovens arquitetos e estudantes que estão questionando seus papeis pela tamanha dificuldade em encontrar um trabalho. Você tem algum conselho para jovens arquitetos que lutam para encontrar novas formas de aplicar suas habilidades e experiências arquitetônicas?

Tadao Ando: Para mim, eu acho que a arquitetura é uma das melhores profissões para a sociedade. Quantas carreiras combinam estrutura e composição de espaço enquanto trabalham com especialistas de vários campos diferentes para criar uma obra arquitetônica? Essas habilidades não os limitam para construções apenas. Nós temos de aprender a coordenar e colaborar com muitas pessoas diferentes para criar diferentes coisas. Há outras poucas profissões em que se confia em uma só pessoa para coordenar esses tipos de projetos importantes para sociedade. As habilidades do arquiteto são benéficas à sociedade de tantas formas, e o que nos leva a pensar sobre como nossa criatividade, administração e coordenação podem ser aplicadas em outros campos.

Nós não trabalhamos em um vazio. Nós compomos, colocamos tudo junto enquanto trabalhamos com muitas pessoas. Há uma grande excitação e inspiração que vem da interação e do trabalho com tanta gente. Nós precisamos estar disponíveis para usar essa prática de forma que se estenda a profissão da arquitetura para outras áreas. Há sempre épocas de recessão e dificuldade, então precisamos compreender essa grande habilidade que a arquitetura nos oferece.

Orhan Ayyüce: Então, você não voltará ao boxe?

(risos)

Tadao Ando: Ainda estou no boxe!

Orhan Ayyüce: Eu estava assistindo um documentário online sobre você na internet. Estava em japonês, então não entendi uma só palavra. Havia uma cena no vídeo que mostrava você com um megafone em sua mão, falando para cerca de 200 trabalhadores em uma construção. Essa cena me emocionou. Eu pude ver que você tem um talento para se conectar com as pessoas.

Tadao Ando: Como todos sabem você não pode fazer arquitetura sozinho. Um arquiteto precisa fazer cada um ter domínio do seu trabalho. Para se ter sucesso, é preciso garantir que cada carpinteiro, encanador e assim por diante, em todos os projetos, que estão fazendo seu próprio trabalho. Toda vez que eu vou ao local da construção, eu tento fotografar cada trabalhador. É um símbolo de que estamos todos trabalhando juntos com um objetivo em comum. É muito importante para mim que cada um se sinta dessa forma.

Anúncios